Diário de um cineasta iniciante — Cap. 4: “Fizemos um filme”

Com atraso, publico texto que escrevi no dia seguinte ao fim das filmagens de “Reversível”. No calor da emoção. Lá vai.

09/02/2025

Esqueçam tudo que eu disse até aqui. No set, é tudo diferente.

Os últimos dias têm sido frenéticos, e não apenas pelo excesso de trabalho. Há também um excesso de entusiasmo que me tira o sono, me joga pra longe das redes sociais e calibra meu foco para uma única coisa: o meu filme. Que é meu por assim dizer. Em verdade, já não me pertence faz tempo, mas me dei conta ainda agora.

Preparar um set é preparar uma festa. E é bonito demais de ver. Do esmero do departamento de produção à dedicação da equipe técnica. Do olhar atento da produtora executiva, sempre buscando a perfeição em todos os detalhes, à entrega dos atores — concentrados, com retidão religiosa, prontos para serem chamados ao palco que se se transforma o set. É um balé bonito demais de assistir.

Acontece que o dia das gravações chegou e eu não estava preparado para ver algo meu se tornar coletivo de uma forma tão bonita — não estava preparado para o tanto de epifania que cabe num set de filmagem.

Depois de tanto trabalho na pré-produção, tantas contratações e perrengues e cálculos e recriações, me peguei pensando: todas essas pessoas acreditam no que escrevi. Que louco. Porque eu sei que tudo aquilo é mentira, que saiu de uma cabecinha meio perturbada que não sabe lidar com a realidade e por isso se propõe a criar uma nova. Mas a suspensão de descrença atinge níveis máximos quando a criatividade assume as rédeas da vida. Eles acreditam em mim.

Foi bonito sentir a energia do set. Sentir todos empenhados em contribuir. E sentir coisas que nem imaginava que sentiria — o respeito e o cuidado uns com os outros, as piadas internas que iam surgindo, o empenho em sobrepujar as dificuldades e fazer junto. Essa é a palavra: junto. Cinema é junto.

Teve perrengue sim, e não posso deixar de registrar o top 1:

No dia anterior à gravação, caiu uma chuva torrencial em Recife. Uma árvore que ficava na esquina da locação despencou com o aguaceiro e saiu carregando postes e fiações. O bairro inteiro ficou sem energia. Foi uma madrugada de tensão, todos sem saber se conseguiríamos filmar no dia seguinte. Mas deu certo. A luz voltou e o sol abriu.

No fim das contas, fizemos um filme. Com todas as limitações, alegrias e expectativas que envolvem fazer cinema independente. Ao fim do último dia de gravações, sentados numa mesa de bar para brindar nossas merecidas cervejas, eu tive orgulho de mim. Confesso que me senti maior que sou. Confesso até que me achei o maioral. Durou alguns segundos apenas — logo aterrissei na vida real. Mas a sensação de completude que me invadiu naquele ínfimo instante em que me senti grandioso de alguma forma fez tudo valer à pena.

Pra sentir um gostinho, tem making of sim. Cortesia de Alef Pontes (still e making of).

E que venha a montagem!

Categorias: Diário de cineasta

6 comentários em “Diário de um cineasta iniciante — Cap. 4: “Fizemos um filme””

  1. Ellen Meireles

    Tão emocionante ver as entranhas tão iluminadas dessa produção.
    Parabéns a você e toda a equipe!!!
    Muito sucesso a Reversível!!!

  2. Jandelson Oliveira

    Parabéns Patrício e Equipe.
    Seu relato é muito lindo e passa por diversas sensações de como é a criação de algo novo que está nascendo.
    Me lembrei do nascimento dos meus filhos em algum momentos de suas palavras.
    Sucesso!!!!

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