Sempre me disseram que o filme só surge na montagem. Algo como “você escreve um filme, grava outro e só depois de montar tem o verdadeiro filme”. Nunca acreditei. Na minha cabecinha cheia de necessidade de controle total sobre tudo, pensei que rodar o roteiro EXATAMENTE como estava escrito, linha por linha sem tirar nem por, me garantiria na ilha de edição um filme EXATAMENTE como estava no roteiro. Ledo engano.
Tudo já começou a mudar no set. Porque o set, minha gente, é vivo, é movimento, é caos. A gente tem aquela cena escrita, o plano de filmagem indicando o enquadramento, os atores posicionados, tudo ensaiado previamente. E quando a palavra “ação” retumba pelas paredes da locação em silêncio, a vida acontece. E acontece do jeito que a vida quer ser. Nunca fica como foi escrito. Fica melhor, ou pior, mas nunca fica como estava no roteiro. E tem os imprevistos também. Um buzinaço bem na hora da cena de diálogo, ou o céu nublado bem na hora da externa, ou o cronograma atrasado que faz a gente correr justo na cena que queria 8 horas para gravar. A vida acontecendo, e a gente tem que dar um jeito.
O HD que o logger entregou com as imagens brutas (todo organizadinho, cheio de tags coloridas, uma belezura só) é mais que um HD. É o registro mais fidedigno de quem eu sou enquanto diretor estreante. É o que pude fazer. Entre arquivos RAW, timelines e proxies, residia ali o registro de um Patrício Júnior que numa mais existirá. Muitas vezes potente, quase grandioso, principalmente quando diz com a empáfia dos que fingem saber o que estão fazendo: “Foi câmera? Foi som? Ação!”. Noutras vezes, diminuto e tímido, apequenado pela insegurança de não saber conduzir a contento a cena que formulou diante da folha em branco. Quase comovente — ou lastimável, vai saber.
O fato é que cheguei na ilha de edição para montar um filme que não escrevi. Não é necessariamente uma tragédia, posto que consegui preciosas imagens que jamais conseguiria conceber no roteiro. Mas não foi o que escrevi. Junto com o montador, o filme foi ganhando forma baseado numa única e cruel verdade: é o que pude fazer. Parece terrível, por vezes é, mas nem sempre.
O que pude fazer guarda, além das minhas limitações e falhas, alguns acertos inesperados. Aquela sequência perfeita (os atores no tom certo, num profissionalismo que era pura generosidade com o iniciante aqui), e aquele close que deslizou perfeitamente, e aquela luz linda que imaginei por meses e aconteceu, tava lá, conseguimos capturar! Dentre muitíssimos joios, eis que reluzem alguns trigos.
“O filme vai ganhando forma baseado numa única e cruel verdade: é o que pude fazer.”
Com o Adobe Premiere aberto, indo e vindo por horas de imagens brutas, a história que deve ser contada se sobrepõe à história que eu queria contar. Vai tomando forma, se encorpando, nascendo. O filme se impõe a tudo que veio antes — roteiro, decupagem, plano de filmagem, análise técnica. O filme surge em meio aos escombros das imagens brutas, lapidando-se no talento do montador, na criatividade de última hora, no marinar necessário das ideias. O filme se monta ao desmontar qualquer tentativa de montá-lo.
Vem o primeiro corte, o segundo, o terceiro. Com a audácia de quem procura pepitas numa caverna escura, vamos aparando arestas, queimando as gorduras, resvalando na assertividade e chegando ao corte final. Que ainda não é o filme, mas é quase. Já posso sentir o cheiro, o gosto, as formas. Já posso vislumbrar qual filme está nascendo.
Assim, descobrindo muito sobre mim enquanto a história se descobria em si mesma, completei a montagem do meu primeiro curta de ficção. Agora é o que a gente chama propriamente de pós. Tratamento de cor, tratamento de som, cartelas, trilha.
O corte final é um quase filme, mas já me soa tanto como filme que tenho até dificuldade de assisti-lo sem completar as lacunas. Vai ter um ruído aqui, essa luz vai ser assim, essa transição vai ser assado. O filme já existe dentro de mim. E talvez, agora que sei tanto sobre ele, sempre tenha existido.
PS.: Cabais nessa etapa do processo, não posso deixar de nomeá-los. Marcio Dias, logger do projeto, organizou todos os arquivos com um afeto que poucas vezes pude enxergar em tarefas tão árduas. Preocupado com a minha estreia, se predispôs até a explicar pacientemente como eu deveria lidar com o HD, com as timelines, com os arquivos brutos. Na sequência, veio Raphael Maia como um montador que era ao mesmo tempo ouvinte paciente e ativo criador. Abrilhantando as ideias com seus inconformismos, dialogou tão perfeitamente com o que eu tinha na minha cabeça que chegamos a completar ideias um do outro, conectados num mundo de fantasia que só existia na nossa imaginação. Um primor, ainda mais quando estou diante de um montador estreante na ficção. Aos dois, meu mais sincero obrigado. Muito obrigado.


