Estou a exatamente um mês da gravação do meu primeiro curta de ficção. Olho ao redor e me pergunto como dar conta de tanta coisa em 30 dias. As ideias pululam, o sangue ferve, o coração sai de controle. A realidade, inexorável, se impõe.
Quem pensa que a gente faz isso por dinheiro está redondamente enganado. Não há dinheiro no mundo que pague a falta de sono, a exaustão, a desconexão com a realidade, o desagravo. Não há dinheiro que pague a abdicação da vida em prol de uma realidade que não existe. Mas que inexplicável delícia tudo isso!
O vil metal
E por falar em dinheiro, eis aqui uma grandessíssimo questão. Toda vez que penso num plano diferente, numa sequência nova, numa intervenção digital que seja, o orçamento grita por socorro. Sim, tem essa parte que ninguém fala. Um cineasta não pode se dar ao luxo de fazer apenas cinema. A gente tem que fazer contas, muitas contas, e se acostuma a esse papel de cortar os custos que nós mesmos criamos.
Cheguei a essa data tão marcante com uma equipe montada (uma equipe, minha gente!). E descobri, nesse longo processo de negociar cachês e agendas, palavras absolutamente fascinantes. Gaffer, logger e platô são apenas algumas delas.
Quase todo mundo já está contratado e agora é hora de fazer pesquisa de locação. Sim, é exatamente isso que você está pensando: olhar inúmeras fotos de locais que podem servir de cenário para o curta, e chegar a um impossível shortlist para fazer visitas técnicas.
Contar é recontar
Também contei e recontei as ideias que tenho para o curta dezenas de vezes. Para o figurinista, para a maquiadora, para o iluminador. Para cada um dos que foram contratados, tive que contar tudo. Reuniões eternas, que invariavelmente começavam com uma mensagem no WhatsApp dizendo “entro em cinco minutos”. Cada vez que eu contava sobre o que pretendia pro filme, mais e mais ideias iam surgindo. Criei o hábito de anotar tudo num caderninho, que me acompanha aonde vou como se tivesse pernas. Ei, caderninho, volta aqui!
Tempo é elástico
Tenho dedicado bastante tempo a refazer cronogramas também. Isso, refazer. “Fazer” ficou lá atrás, num passado longínquo, quando eu ainda tinha a ilusão de que datas eram compromissos a serem cumpridos. Hoje já sei que o tempo no cinema é elástico, moldável, adaptável. Que ideias precisam do tempero dos dias para crescerem saudáveis.
30 dias e contando
Ah, sim, óbvio que retornei dezenas de vezes ao roteiro final. E retornarei sempre que for necessário. Acho que estarão montando o set e eu estarei com o Final Draft aberto, mudando “Oi, tudo bom?” para “E aí?” como se isso fizesse com que eu me tornasse genial.
Dia desses me perguntaram sobre a visão do diretor, um documento no qual grafamos tudo que imaginamos para cada detalhe da produção, e eu respondi que precisava marcar um oftalmologista com urgência. A coisa toda vai tomando conta da nossa vida a ponto de nos desconectarmos da realidade.
É assim mesmo, não preciso me preocupar. Sempre é assim quando estamos perto de viver os dias mais importantes das nossas vidas. Eu acho.

